Poema à boca fechada

                                   José Saramago

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

* José Saramago, poema selecionado em "OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª ed.".

--------- Foi Bet Gonçalves que me presenteou com o Saramago poeta no seu e-mail sagrado enviado aos domingos.

Postagens mais visitadas deste blog

Arquiteto Carlos Nascimento (in memoriam) será homenageado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo

É casa, é jardim

Gabriel, Miguel, Drummond e Chico