domingo, 29 de março de 2015

Pra chegar à Pasárgada...


Manuel Bandeira... não posso creditar a foto pois desconheço a autoria...

Acabei de ler Itinerário de Pasárgada. O trajeto do poeta pelo poeta. Sempre me surpreendi com Manuel Bandeira e seus poemas vestidos de uma aparente simplicidade que nos podem levar a subir, subir, subir, subir...

... sem o triste fim de Ícaro.

De tantas páginas, grifei tanto o livro, o trecho que segue me cativou pelo tom descontraído e ao mesmo tempo confessional:

Sim, gosto de ser musicado, de ser traduzido e... de ser fotografado. Criancice? Deus me conserve as minhas criancices! Talvez nesse gosto, como nos outros dois, o que há seja o desejo de me conhecer melhor, sair fora de mim para me olhar como puro objeto.


= Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira, p. 104.    

domingo, 8 de março de 2015

Mulheres de todo o mundo, um feliz dia!


Bailarinas em Azul. Degas, 1899.

... sem nenhum acontecimento me provocando, sem nenhuma expectativa, de tarde, 

esta tarde, eu, aplicando-me na caligrafia como uma criança de escola, eu, também 

uma das freiras que costuram, em labor de abelha bordo a fio de ouro: Viva Hoje.

(Clarice Lispector in A descoberta do mundo, p. 306)

= = =

sábado, 7 de março de 2015

O senhor agora vai mudar de corpo




Cada palavra era como cuspir uma pedra. Uma pedra de fogo.

... tecem a roupa da morte.  A noite inteira se derramará sobre o corpo.

Viver não é apenas perigoso, é, principalmente, milagroso.

... diante de um céu azul, exageradamente azul.

... gigante mundo em quatro paredes.

... campo minado de confissões.

 – Vamos os dois sambar na avenida, com uma biblioteca debaixo do braço.

Sem as palavras não poderá se salvar.

Estive em alto mar durante toda a leitura de O senhor vai mudar de corpo, de Raimundo Carrero. As frases acima foram retiradas do mais recente romance do escritor e fragmentadas ou não, são como salva-vidas lançados pela escrita que muitas vezes me provocou uma certa vertigem.

Então não é à toa que Carrero traz Herman Melville e seu Moby Dick nessa narrativa plena de corpo.

O livro é aberto com uma frase de Clarice Lispector: “O corpo é a única certeza que nos acompanha até a morte.”

Então também não é à toa que o escritor traz Perto do coração Selvagem para tão junto de nós, os leitores. No finalzinho, a personagem central de Clarice, Joana, parte em viagem e tem o mar diante de si.

Entrelaçadas obra e vida; ficção e realidade, O senhor vai mudar de corpo é uma obra inteira, de um escritor que se desnuda e revela a imensidão do ato de criar e o severo medo de um dia deixar de fazê-lo.

= = =  

quinta-feira, 5 de março de 2015

Clarice e Bergman

Cena do filme Persona, de Ingmar Bergman

"Não, não pretendo falar do filme de Bergman. Também emudeci ao sentir o dilaceramento de culpa de uma mulher que odeia o filho, e por quem este sente um grande amor. A mudez que a mulher escolheu para viver a sua culpa: não quis falar, o que aliviaria o seu sofrimento, mas calar-se para sempre como castigo. Nem quero falar da enfermeira que, se a princípio tinha a vida assegurada pelo marido e filhos, absorve no entanto a personalidade da que escolhera o silêncio, transforma-se numa mulher que não quer nada e quer tudo – e o nada o que é? E o tudo o que é? Sei, oh sei que a humanidade se extravasou desde que apareceu o primeiro homem. Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer. Também não vou chamar Bergman de genial. Nós, sim, é que não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa completa que nos é dada ao nascimento: o gênio da vida."


(Clarice Lispector no início da crônica Persona, publicada em 2 de março de 1968 no Jornal do Brasil. Reunida em A descoberta do mundo, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992)
= = =