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Mostrando postagens de Março, 2015

Pra chegar à Pasárgada...

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Acabei de ler Itinerário de Pasárgada. O trajeto do poeta pelo poeta. Sempre me surpreendi com Manuel Bandeira e seus poemas vestidos de uma aparente simplicidade que nos podem levar a subir, subir, subir, subir...

... sem o triste fim de Ícaro.
De tantas páginas, grifei tanto o livro, o trecho que segue me cativou pelo tom descontraído e ao mesmo tempo confessional:
Sim, gosto de ser musicado, de ser traduzido e... de ser fotografado. Criancice? Deus me conserve as minhas criancices! Talvez nesse gosto, como nos outros dois, o que há seja o desejo de me conhecer melhor, sair fora de mim para me olhar como puro objeto.

= Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira, p. 104.

Mulheres de todo o mundo, um feliz dia!

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... sem nenhum acontecimento me provocando, sem nenhuma expectativa, de tarde, 
esta tarde, eu, aplicando-me na caligrafia como uma criança de escola, eu, também 
uma das freiras que costuram, em labor de abelha bordo a fio de ouro: Viva Hoje.
(Clarice Lispector in A descoberta do mundo, p. 306)
= = =

O senhor agora vai mudar de corpo

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Cada palavra era como cuspir uma pedra. Uma pedra de fogo.
... tecem a roupa da morte.  A noite inteira se derramará sobre o corpo.
Viver não é apenas perigoso, é, principalmente, milagroso.
... diante de um céu azul, exageradamente azul.
... gigante mundo em quatro paredes.
... campo minado de confissões.
 – Vamos os dois sambar na avenida, com uma biblioteca debaixo do braço.
Sem as palavras não poderá se salvar.
Estive em alto mar durante toda a leitura de O senhor vai mudar de corpo, de Raimundo Carrero. As frases acima foram retiradas do mais recente romance do escritor e fragmentadas ou não, são como salva-vidas lançados pela escrita que muitas vezes me provocou uma certa vertigem.
Então não é à toa que Carrero traz Herman Melville e seu Moby Dick nessa narrativa plena de corpo.
O livro é aberto com uma frase de Clarice Lispector: “O corpo é a única certeza que nos acompanha até a morte.”
Então também não é à toa que o escritor traz Perto do coração Selvagem para tão junto de nós, os lei…

Clarice e Bergman

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"Não, não pretendo falar do filme de Bergman. Também emudeci ao sentir o dilaceramento de culpa de uma mulher que odeia o filho, e por quem este sente um grande amor. A mudez que a mulher escolheu para viver a sua culpa: não quis falar, o que aliviaria o seu sofrimento, mas calar-se para sempre como castigo. Nem quero falar da enfermeira que, se a princípio tinha a vida assegurada pelo marido e filhos, absorve no entanto a personalidade da que escolhera o silêncio, transforma-se numa mulher que não quer nada e quer tudo – e o nada o que é? E o tudo o que é? Sei, oh sei que a humanidade se extravasou desde que apareceu o primeiro homem. Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer. Também não vou chamar Bergman de genial. Nós, sim, é que não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa completa que nos é dada ao nascimento: o gênio da vida."

(Clarice Lispector no início da crônica Persona, publicada …