quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A Antonia



" 'Persona'. Lóri tinha pouca memória, não sabia por isso se era no

antigo teatro grego ou romano que os atores, antes de entrarem

em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela

expressão o que o papel de cada um iria exprimir. Lóri bem sabia

que uma das qualidades do ator estava nas mutações sensíveis do

rosto, e que a máscara as esconderia. Por que então lhe agradava

tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem

sabe, ela achava que a máscara era um dar-se tão importante 

quanto o dar-se pela dor do rosto." 



= Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. 

domingo, 7 de agosto de 2016

Intacta retina: 07/08/16


                                                                                             Drawing by Tom Azevedo


"Existirmos, a que será que se destina?" Essa pergunta é o início de Cajuína, canção do aniversariante Caetano VelosoPosso afirmar, sem medo de errar, que Caetano teve uma infância feliz. Consigo imaginá-lo menino, magrinho e risonho, correndo e brincando muuuuuuuuuito pelas ruas de Santo Amaro, na Bahia. 

Será que os reluzentes primeiros anos de Caetano nesse planeta pavimentaram a trajetória dele? Não sei e só tenho a agradecer tantas obras-primas que coloriram a minha infancência, adolescência e "adultecência".  Tive mesmo que fundar esses neologismos. Há que existir essência nas etapas que um ser humano vive.

Lorena, a outra aniversariante deste 7 de agosto de 2016 dia , minha jovem amiga, com absoluta certeza também teve uma infância plena de felicidade. Tenho certeza também de que ela constrói uma estrada linda nessa vida. Deverá se formar em Medicina e dará sua contribuição aos habitantes da Terra. 

Caetano completa 74 anos. Lorena, 18 e nesse dia, quero dizer pr´ocês: -  Feliz aniversário!

Obs.: "Intacta retina", título desta postagem, foi retirado da  música Cajuína

= = = 

sábado, 6 de agosto de 2016

Olimpíadas 2016, vou me ufanar: viva o povo brasileiro!


                                                                                                   Drawing by Tom Azevedo


Eita que a gente tava mesmo precisado de umas ondas de otimismo. Pois  eu me banhei no mar do Rio de Janeiro na abertura das Olimpíadas.  Confesso, chorei! Sou mole pra chorar? Manteiga derretida? Talvez. 

Mas é que eu realmente me orgulhei ao assistir pela televisão junto ao meu filho Antonio,  que tem 10 anos de idade - ele se animou tanto, achou tudo tão bonito que acordou cedo hoje e já foi acompanhar os jogos olímpicos. Tá assistindo tudo.

Quando Antonio  viu no palco a representação dos índios, os donos do Brasil; os portugueses, os invasores do Brasil; a escravização dos africanos; a vinda de outros povos; ele disse: - Mãe, pra saber a história do Brasil, é só assistir essa abertura, né? 

Que coisa mais linda o Hino Nacional entoado por Paulinho da Viola.  Não à toa a presença da brava Elza Soares, guerreira, resistente, apesar de enfrentar tantos problemas de saúde.  Ela rodeada de três bailarinas lindas, jovens, plenas de saúde, numa canção repleta de significados que é o Canto de Ossanha.

Mas quando vi Gisele Bündchen no palco da abertura ao som de Garota de Ipanema, pensei:  - Será que ela representa o Brasil? Só porque ela é famosa no mundo? Sei não. Sou fã mesmo é de Carolina Maria de Jesus. Ela não está mais entre nós. Escreveu uma obra emocionante, "Quarto de despejo - diário de uma favelada". 

E  c-a-r-a-m--b-a!  Teve até poesia - um trecho do poema "A Flor e a Náusea"  lido em português e em inglês pro mundo inteirinho ouvir. Viva Carlos Drummond de Andrade.  E é entre o luxo e o lixo, entre a flor e a náusea que a gente caminha por esse País. Viva o povo brasileiro!

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Minha defesa é escrever




"É. Parece que estou mudando de modo de escrever. Mas acontece

que só escrevo o que quero, não sou um profissional - e é preciso

falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me

defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e ríspidos 

de pintura. Estarei lidando com fatos como se fossem as 

irremediáveis pedras de que falei. Embora queira que para me 

animar sinos badalem enquanto adivinho a realidade. E que anjos 

esvoacem em vespas transparentes em torno de minha cabeça 

quente porque esta quer enfim se transformar em objeto-coisa, é 

mais fácil."



= Clarice Lispector. A hora da estrela. Francisco Alves Editora, p. 31, 17a. edição.