domingo, 28 de junho de 2015

Nina Simone



Imagem capturada do documentário "O que aconteceu, miss Simone?"


Que história essa de Nina Simone! Parte da vida dela está num documentário dirigido por Liz Garbus.

Ela foi batizada de Eunice Kathleen Waymon, mas teve que mudar de nome. Precisou, para sobreviver,  cantar a “música do diabo” em bares americanos e não queria que a mãe descobrisse.


A meta de Nina Simone era se tornar uma pianista clássica. Queria tocar Bach. Enfrentou preconceitos. Enfrentou a pobreza. Enfrentou o marido que batia nela. Foi defensora dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Viva Nina Simone!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Definição engraçadinha


Noctâmbulos, quadro de Edward Hopper, 1942.

Por você, eu dormiria de meia pra virar burguês...

Ele tem nove anos, e no trecho acima da música Por você, Barão Vermelho, me pergunta:

- O que é burguês?

- O significado de burguês?

Carambola, como vou explicar o que é burguês? Vou falar dos burgos, da Revolução Francesa, do Romantismo etc?

O silêncio perdura enquanto a canção continua e ele parece ter esquecido o assunto.

- Já sei! ... burguês é quem gosta de hambúrguer!


= = = 

domingo, 21 de junho de 2015

O nosso I-pod era o rádio: carta aberta a David Bowie




Durante um show, Bowie tenta sintonizar seres extraterrenos amigos seus, é claro!


David, te dou pérolas e diamantes de todo o meu coração. Lá pelos anos oitenta, eu ouvia você pelas ondas que me chegavam pelo rádio. Quem consegue discordar da magia daquelas noites maravilhosamente insones?

Noites de adolescente em Petrolina, sertão de  Pernambuco. O rádio era nosso I-pod, i–phone, Samsung-galaxy, moto-g... Freddy está tão certo naquela canção, Radio Ga Ga!
Eu era feliz... e sabia!

David, como isso aqui não é uma dissertação de mestrado, ouso afirmar que eu sei qual é a sua Pasárgada. A sua Pasárgada está localizada no espaço sideral. E eu posso provar com os títulos de algumas canções suas: Starman, Ziggy Stardust, Space oddity, Life on Mars?

Bowie, te ai lóvi iú. Não, não. Não porque o amor seja uma palavra antiquada e sim porque “o amor nos desafia a cuidar das pessoas no fim da noite, o amor nos desafia a mudar nosso jeito, nos desafia a cuidar de nós mesmos, esta é a nossa última dança, estes somos nós.” (Under pressure, trecho livremente traduzido)

Love,
Nádia.

Petrolina, 22 de junho de 2015

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sábado, 20 de junho de 2015

O São João é o carnaval do Nordeste



Candido Portinari soube traduzir o festejo mais quente do Nordeste brasileiro

- Olha pro céu, meu amor, vê como ele tá lindo...

- Existe o verbo sanfonar?

- Sim!

Todo o interior do Brasil está conjugando esse danado: eu sanfono | tu sanfonas | ele sanfona | vós sanfonais | eles, elas sanfonam

São diversos os palcos que encontramos em Petrolina, Cabrobó, Lagoa Grande, Orocó, Salgueiro, Santa Maria da Boa Vista Bodocó, Juazeiro, Curaçá. A música está nas roças, ruas, praças e calçadas. 

O São João é o nosso carnaval! É feriado na véspera e no dia, como acontece com o Natal!

Forró do bom mesmo pra quem é da terrinha é forró pé-de-serra. Ele é feito com três pessoas: uma no triângulo, outra na sanfona e outra na zabumba. E a festa tá feita!

Posso afirmar com toda certeza que o pai do São João é Luiz Gonzaga. Foi ele quem mais cantou as alegrias e tristezas do nordestino.

Em Petrolina, Pernambuco, todo cidadão que se preze enfeita a casa, a rua, a loja. Pois que é tempo de acender ou reacender a fogueira nos nossos corações.

- Olha pro céu, meu amor, vê como ele tá lindo...


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quinta-feira, 18 de junho de 2015

A perda, segundo Elizabeth Bishop



Vamos dançar para espantar as dores. La danza, quadro de Henri Matisse


Uma arte 
(Elizabeth Bishop)


A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

= Bishop, Elizabeth. O iceberg imaginário e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 309. Tradução de Paulo Henriques Britto.


One Art
(Elizabeth Bishop)

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

— Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (
Write it!) like disaster.
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terça-feira, 16 de junho de 2015

O pedreiro e o poeta

René Magritte: o palácio das cortinas

Um pedreiro foi o responsável pela descoberta de uma pegadinha que Fernando Pessoa aplicou nos seus felizardos leitores. A decifração de um não tão claro enigma veio de um estudioso, mais tarde biógrafo arretado do multifacetado poeta português.

O jurista José Paulo Cavalcanti Filho me recebeu e um amigo para uma entrevista no seu escritório em Recife. O tema não era literatura, e sim algo relacionado à Constituição Federal, a direitos e deveres. Eu acho que ainda tenho o resultado dessa entrevista entre os meus velhos papéis.

Supergeneroso, José Paulo nos contou que sempre achou estranhos os seguintes versos de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

Ele disse que se perguntava, encafifado: 

- Como alguém pode fingir algo que realmente é verdade?

A resposta seria uma tarefa digna de grande detetive e essa investigação levaria anos. Falou que estava numa obra de um amigo e ouviu um pedreiro dizer pro ajudante: - Traz a areia de fingir.

Ops, traz a areia de fingir? Correu pra casa e num dicionário latino encontrou o termo finger:

- Descobri que além de fingir, tem também outra acepção: construir! Então, por causa de um pedreiro, me foi revelado que Fernando Pessoa fez uma brincadeira com a gente:

O poeta é um fingidor (construtor)
Finge (constrói) tão completamente que chega a fingir
que é dor (construir a dor) a dor que deveras sente.

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domingo, 14 de junho de 2015

...



Antes naufragar com um "não" do que naufragar com "nunca tentei".




quinta-feira, 11 de junho de 2015

Uma canção para John Fante

Fante nos olha e nos presenteia

John Fante (1909-1983) me foi apresentado por uma amiga, Natyara Amorim. Mil agradecimentos a ela são insuficientes.

- John, é na sua escrita que eu consigo surfar. Eu que nunca serei surfista. Pelo menos nesta vida. Prefiro apostar tudo na presente encarnação.

Trechos de “Espere a primavera, Bandini”:

|A incerteza da paz nascente agitou-se dentro das profundezas, dez milhões de quilômetros dentro dele.|
|Odiava August por causa disso, por fazer um cavalo de batalha da sua pobreza.|
|A senhora podia ser santa e firme, mas por que deviam todos eles sofrer? Sua mãe tinha Deus demais em si.|
|Os dias profundos, os dias tristes.|

|Havia peixe para o jantar porque vovó Donna mandara cinco dólares pelo correio.|



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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Festival de Besteira que Assola o País



Pessoas, por favor, me digam que isso tudo é uma brincadeira. Em Pernambuco, uma lei foi criada, votada e aprovada determinando horários de malabarismo e outras manifestações culturais em sinais de trânsito e pelas ruas do Recife. Agora, um deputado de Goiás propõe mais uma lei esdrúxula: regulamentar horário de entrega de comida em casa!

Como eu queria que Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, estivesse aqui neste planeta. Ele resumiria bem o estado de espírito que envolve esses dias em que vivemos.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Lima Barreto e Mário de Andrade

O Abaporu (de Tarsila do Amaral) observa e comenta: - Pena que Lima Barreto e Mário de Andrade nunca se encontraram


Eu tenho que compartilhar essa história! É sobre os brasileiríssimos escritores Lima Barreto e Mário de Andrade. Quem contou foi Antonio Arnoni Prado, uma narrativa que ele ouviu de Sérgio Buarque de Holanda e foi mais ou menos assim:

Sérgio Buarque de Holanda tinha ido ao Rio de Janeiro distribuir alguns exemplares da revista Klaxon, dos modernistas paulistas. Na livraria Schettino, ele encontrou nada mais nada menos Lima Barreto – ele estava dormindo lá, por generosidade de Chico Schettino, o dono.  
Lima Barreto então revelou que estava devendo uma visita a Mário de Andrade, que tinha lido todos os seus livros. Foi assim que Lima Barreto se referiu a Mário:

... “brasileiro da minha raça e da minha cor, um intelectual diferente de todos os que conheci até agora nesse meio de literatos e de bacharéis.” 

(...) Ao contrário da má vontade e dos preconceitos dos nossos sabichões da gramática, ele valoriza o pouco que eu tinha criado, me incentivando a dizer tudo de uma vez, como se eu mesmo fosse um personagem! E via tudo de um jeito que eu desejava que as pessoas vissem, o Policarpo Quaresma confirmando a nossa queda pela improvisação, o Isaías Caminha com um sinal vivo, tão raro entre nós (dizia ele), da crítica capaz de viver com o preconceito...”

Lima Barreto e Mário de Andrade nunca se conheceram pessoalmente porque algumas circunstâncias impediram esse encontro. Três meses depois da conversa entre Sérgio Buarque de Holanda e Lima Barreto, morria o autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma”.


= Esse episódio foi narrado por Antonio Arnoni Prado no livro “Cartas a Mário de Andrade”, organizado por Fábio Lucas, editora Nova Fronteira, 1993.