domingo, 22 de fevereiro de 2015

Clarice Lispector e o dicionário das flores


Girassóis. Van Gogh.

Clarice convida a mudar-se para um reino novo, o reino das flores. Essas redefinições estão no livro Água Viva:

CRISÂNTEMO: “O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria.”

GERÂNIO: “Gerânio é flor de canteiro de janela. Encontra-se em São Paulo, no bairro de Grajaú e na Suíça.”

ORQUÍDEA: “A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é espontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar.” (...)

TULIPA: “Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.”


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sábado, 21 de fevereiro de 2015

O silêncio segundo Nietzsche

Quero o silêncio. Óleo sobre tela. Por Tom Azevedo.



Tem palavras que colam na gente. Por serem feias, estranhas, bonitas, sonoras. DISPÉPTICO é uma delas. 

“Todos os calados são dispépticos”, setenciou Friedrich Nietzsche em Ecce homo: como alguém se torna o que é:

“Parece-me também que a palavra mais grosseira, a carta mais grosseira, são ainda mais humanas e mais honestas do que o silêncio. Aos que silenciam falta-lhes quase sempre uma finura e cortesia do coração; silenciar é uma objeção, engolir as coisas produz necessariamente mau caráter – estraga inclusive o estômago. Todos os calados são dispépticos.”


= =  Página 29, Companhia das Letras, 1995.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida



Fui e sou apaixonada por muitos “Paul”: o ator; o Beatle; e tem também o escritor, Paul Auster (foto), que faz aniversário hoje, 3 de fevereiro de 2015.

O que me fascina na obra de Auster é o manejo incomparável da escrita. Ele parece um maestro. Gosto também da recorrência de certos temas na sua obra, como as terríveis e adoráveis coincidências que são pregadas por e pelas nossas vidas.  

Admiro o escritor ou a escritora que sempre soube que queria escrever, como uma missão, ou uma maldição, ou uma sina. Em Da mão para a boca (Hand to mouth), Auster nos conta como foi difícil se manter do ofício de escrever, como ele se posiciona tão firmemente em relação ao caminho que precisou seguir:


“Não vou defender as escolhas que fiz. Se elas não foram práticas, a verdade é que eu não queria ser prático. Queria viver experiências novas, conhecer o mundo e me testar, entrar e sair de várias coisas, explorar o máximo possível. Desde que eu mantivesse os olhos abertos, parecia-me que tudo que acontecesse comigo seria útil, me ensinaria coisas que eu não conhecia antes. Se isso parece um método um tanto antiquado, então que seja: jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para um rumo desconhecido, a fim de descobrir a si próprio. Por melhor ou pior que fosse esse caminho, creio que nenhum outro me teria servido. Eu tinha energia, a cabeça cheia de idéias e pés que não queria ficar parados no mesmo lugar. Como o mundo era grande, a última coisa que eu queria era me proteger dos riscos da vida.” 
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