sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Nietzsche, uma canção


Ler Friedrich Nietzsche é como escutar música. Navego por entre as notas que me levam a labirintos azuis, vermelhos, cinzas e amarelos. Vida: a abundância e a escassez. O cheio e o vazio. O belo e o feio.

Das aquisições literárias das férias de julho... ele, Friedrich Whilhelm Nietzsche:

Aforismo número 45, intitulado "Em que nos tornamos artistas":

"Quem faz de alguém seu ídolo, procura justificar-se ante si mesmo, elevando-o em ideal; nisso torna-se um artista, para ter boa consciência. Se sofre, não sofre por não saber, mas por enganar a si mesmo, como se não soubesse. - A miséria e delícia interior de uma tal pessoa - isso inclui todos os que amam apaixonadamente - não pode ser esvaziada com baldes comuns."


(In "100 aforismos sobre o amor e a morte", Friedrich Nietzsche, Penguin & Companhia das Letras, 1a. ed., São Paulo, 2012; tradução, seleção e notas de Paulo César de Souza)

--- Aforismo número 45, página 30, extraído da obra "Aurora".
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Macabéa, mon amour



Sou irremediavelmente uma apaixonada pela escritora Clarice Lispector e tenho me dedicado a reler a obra que dela possuo.

Uma pessoa muito querida me pediu emprestado o livro "A Hora da Estrela" e antes de entregá-lo, aproveito para relê-lo enquanto essa relíquia não é levada da minha humilde, porém amostrada e invocada biblioteca.

Como é bom reler você, Clarice! Livro após livro,  o espanto seguido do espanto. Livro após livro, a emoção seguida da emoção e isso me faz pintar a minha estrada que se pretende doce e alegre pela maior parte da minha vida.



Quando li "A hora..." em 1991, um presente de Flávio Assaife (in memorian), fiz um "x" delicado nas linhas que mais me tocaram na história da nordestina Macabéa.

Seguem algumas:

= Página 32

 Será mesmo que a ação ultrapassa a palavra?

= Página 33

 Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.

= Página 45

 O cais imundo dava-lhe saudade do futuro.

= Página 88

Estou absolutamente cansado de literatura: só a mudez me faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro."

= Página 98

Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria e rua pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras - desde Moisés se sabe que a palavra é divina. Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro.


In LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Francisco Alves Editora. Rio de Janeiro. 17 ed. 1991.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

"Contrariamente ao que crêem os chorões, todo o erro é uma propriedade que acresce o nosso haver. Em vez de chorar sobre ele, convém apressar-se em aproveitá-lo."   Frase atribuída ao filósofo espanhol Ortega Y Gasset no site de "O Pensador UOL".

Então, quer dizer que o nosso acúmulo de erros pode ser usado, reciclado, ressurgir das cinzas e se transformar em algo? Gostei...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Um clássico da Música Popular Brasileira



A rádio Eldorado FM, do grupo Estadão, selecionou 50 canções brasileiras pra que a gente escolha um clássico nacional.

... pense numa tarefa maravilhosa de realizar  :)

Escolhi "Disparada", pela mensagem e porque eu nasci no Sertão pernambucano e me identifico com o tom de "desabafo" e de luta que Jair Rodrigues emprega à canção defendida no II Festival da MPB, em 1966, quando empatou com "A Banda", de Chico Buarque.


... e viva a MPB! 


sábado, 10 de agosto de 2013

... pra não dizer que não falei em tartarugas


A personagem de Clarice Lispector no livro "Água Viva" faz uma teoria bem pessoal do nascimento do universo na página 60.

"Estou pensando em tartarugas. Uma vez eu disse por pura intuição que a tartaruga era um animal dinossáurico. Depois é que vim ler que é mesmo. Eu tenho cada uma. Um dia vou pintar tartarugas. Elas me interessam muito. Todos os seres vivos, que não o homem, são um escândalo de maravilhamento: fomos modelados e sobrou muita matéria-prima - it - e formaram-se então os bichos. Para que uma tartaruga?  Talvez o título do que estou te escrevendo devesse ser um pouco assim e em forma interrogativa:  ´E as tartarugas?´ Você que me lê diria:  é verdade que há muito tempo não penso em tartarugas."



(Clarice Lispector in "Água Viva", Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1990, 11a edição)



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Prefeitura assegura apoio à Banda Filarmônica 21 de setembro

"Pistões", obra de Tom Azevedo| pastel óleo sobre papel


Sobre a Filarmônica 21 de Setembro, recebi e-mail da Assessoria de Comunicação ontem (8) à tarde, que encaminhou mensagem do secretário de Turismo e Cultura de Petrolina, Yuric Pires Martins; segue na íntegra:

Prezada Nádia,
De antemão, afirmo que a informação está equivocada. E muito pelo contrário, estamos fortalecendo a Filarmônica. Estou com agenda com a rede hoteleira assumida anteriormente mas montarei em conjunto com a comunicação um nota para desmentir essa informação.
Muito grato pela sua compreensão.
Iuric Pires
Secretário de Turismo e Cultura

Prefeitura Municipal de Petrolina

 Eis minha resposta ao secretário e para a Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Petrolina:

Obrigada, secretário Yuric Pires Martins e à equipe da Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Petrolina.

Agradeço pela resposta  positiva pois a Filarmônica é uma patrimônio muito valioso para ser descartado,  são mais de cem anos de história.

Aproveito para sugerir que a Banda Filarmônica seja transformada numa Instituição municipal, como é visto em cidades como Recife e  São Paulo, em que os músicos são contratados por Concurso Público, o que garante longevidade à Orquestra, pois é um meio de manter viva a cultura, com muita música!

É importante que a Filarmônica tenha uma Programação amplamente divulgada pela Assessoria de Comunicação, ter uma Página nas redes sociais, como o Facebook, enfim, se mostrar para a comunidade, que com certeza se fará presente nas apresentações.

Sugiro que toda primeira quarta ou quinta-feira do mês,  às 18h, haja apresentação da Banda na Praça do Coreto, que fica em frente ao prédio que abriga a Sociedade 21 de Setembro. Dessa forma, a Filarmônica ficará mais próxima do público, que além de prestigiar, apoiará a manutenção desse Tesouro Petrolinense.

Ah, sugiro também shows na Concha Acústica, o melhor palco ao ar livre da cidade!

Lembrando que o rejuvenescimento da Filarmônica passa também por um projeto de formação de crianças e adolescentes que serão a garantia da manutenção da Banda.

E tenho certeza que a Secretaria de Turismo e Cultura vai colocar a Banda Filarmônica 21 de Setembro na programação do aniversário da cidade... Afinal, ela traz no nome o amor por Petrolina!

Muuuuuito obrigada!

Nádia Gonzaga | jornalista


Para não dizer que não falei em tartarugas


A personagem criada por Clarice Lispector no livro "Água Viva" faz uma teoria pessoal do nascimento do universo na página sessenta:

"Estou pensando em tartarugas. Uma vez eu disse por pura intuição que a tartaruga era um animal dinossáurico. Depois é que vim ler que é mesmo. Eu tenho cada uma. Um dia vou pintar tartarugas. Elas me interessam muito. Todos os seres vivos, que não o homem, são um escândalo de maravilhamento: fomos modelados e sobrou muita matéria-prima - it - e formaram-se então os bichos. Para que uma tartaruga?  Talvez o título do que estou te escrevendo devesse ser um pouco assim e em forma interrogativa:  ´E as tartarugas?´ Você que me lê diria:  é verdade que há muito tempo não penso em tartarugas."



(Clarice Lispector in "Água Viva", Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1990, 11a edição)
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Filarmônica 21 de setembro é fechada?


A Prefeitura de Petrolina fechou a Filarmônica 21 de Setembro (foto), fundada em 1910?



Eu não acreditei quando vi essa informação na página "Viva Vale do São Francisco" no Facebook. Então, como jornalista que sou, liguei para a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, solicitando posicionamento  oficial sobre a desativação de um dos maiores tesouros culturais do Vale do São Francisco.

Quando eu tiver esse posicionamento por escrito, publicarei neste blog e na minha página do Facebook.

Obs.: Não creditei a foto porque, infelizmente, desconheço a autoria.  


Anotações sobre o fracasso - parte II

Como prometido, volto à temática do fracasso.

Em seu "Da mão para a boca - crônica de um fracasso inicial", Paul Auster conta como conseguiu se tornar escritor. Ele começou com poemas, traduções, textos críticos, resenhas literárias; peças de teatro. Fez até um jogo de baseball; histórias de detetive; roteiros de cinema.



No trecho inicial, o escritor revela:

"Dos vinte e muitos aos trinta e poucos anos de idade, passei por um longo período em que tudo que eu tocava dava em fracasso. Meu casamento terminou em divórcio, meu trabalho como escritor não levava a nada e eu vivia atormentado por problemas financeiros. Não me refiro a apenas um aperto ocasional, a épocas recorrentes de vacas magras, e sim a uma falta de dinheiro constante, opressora, quase sufocante, que me envenenava a alma e mantinha-me num estado perene de pânico."


(Paul Auster in "Da mão para a boca, crônica de um fracasso inicial", Companhia das Letras, 1997)


Amanhã, trarei Virginia Woolf.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Anotações sobre o fracasso

O fracasso me atrai ou melhor, a temática do fracasso me fascina. Assim, quando leio sobre esse danadinho, costumo marcar as páginas em que aparece nas obras dos meus autores favoritos: Clarice Lispector, Paul Auster e Virginia Woolf.



O meu hábito de marcar os livros é recente, acho que foi em 1994, ano em que comecei a escrever o trabalho de conclusão do curso de Jornalismo porque para ganhar tempo, eu fazia anotações nos livros e só depois é que escrevia. A bússola para redigir o  ensaio "A crônica segundo Clarice Lispector"  foi "A Descoberta do Mundo", uma coletânea que a editora Francisco Alves publicou em 1992...

Parece que estou fugindo do assunto, o post de hoje inaugura uma jornada que tratará do fracasso. Começo com o conto "O homem que apareceu", de Clarice Lispector, que foi retirado de "A via crucis do corpo", editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 3a edição, 1984.



Segue trecho:

(...)
Ele me contou que tinha feito a guerra do Vietnã. E que fora durante dois anos marinheiro. Que se dava muito bem com o mar. E seus olhos se encheram de lágrimas.
Eu disse:
— Seja homem e chore, chore quanto quiser; tenha a grande coragem de chorar.
Você deve ter muito motivo para chorar.
— E eu aqui, bebendo café e chorando…
— Não importa, chore e faça de conta que eu não existo.
Ele chorou um pouco. Era um belo homem, com barba por fazer e abatidíssimo.
Via-se que havia fracassado. Como todos nós. Ele me perguntou se podia ler para mim um poema. Eu disse que queria ouvir. Ele abriu uma sacola, tirou de dentro um caderno grosso, pôs-se a rir, ao abrir as folhas.
Então leu o poema. Era simplesmente uma beleza. Misturava palavrões com as maiores delicadezas. Oh Cláudio — tinha eu vontade de gritar — nós todos somos fracassados, nós todos vamos morrer um dia! Quem? mas quem pode dizer com sinceridade que se realizou na vida? O sucesso é uma mentira.
(...)


Quem quiser ler o conto na íntegra, eu o encontrei neste blog bem legal:  O homem que apareceu

domingo, 4 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ferreira Gullar disse que não escreve mais poesia

O autor de "Poema sujo" e "Traduzir-se", que Fagner transformou numa linda canção, já foi "vítima" de um post desta cronista.  Eu adorei quando ele reclamou do péssimo funcionamento de uma agência do Itaú e Gullar fez essa reclamação numa coluna da Folha de S.Paulo.  É que a gente se esquece que os poetas tem conta bancária...

A declaração de que ele não escreve mais poesia está na entrevista publicada na revista Isto É, de 24 de julho de 2013. Confesso que eu gostaria de estar na pele da repórter Eliane Lobato e tê-lo entrevistado. Mas aí, eu pediria ao editor-chefe para estender numa outra edição...

Repórter Eliane Eliane Lobato: O sr. tem feito poesia?

Ferreira Gullar:  Depois do último livro que publiquei, em 2010, nunca mais escrevi poesia.

Repórter: Por quê?

Gullar:  Não sei. Poesia não se decide escrever. Eu não vou escrever só porque faz tempo que eu não escrevo. Poesia é movida por espanto, alguma coisa que você não controla. Inesperadamente. Meu filho  está comendo tangerina, eu sinto o cheiro que já senti mil vezes, mas naquele momento foi uma coisa especial. O cheiro, a cor... e assim nasce o poema. Mas eu não provoquei nada. Mas se isso não acontece mais, se não me surpreendo mais com as coisas, não vu escrever mais. Porque não vou escrever besteira só para dizer que estou escrevendo.

Repórter: Nada mais o espanta?

Gullar: Nada. Estou com 82 anos e nada mais me espanta. Me ocupo fazendo colagens, pintando, coisas que faço como hobby, já que não me considero artista plástico. Faço para ocupar meu tempo, e com prazer.

"Traduzir-se" é uma das pérolas de Gullar, transcrito para você do fundo do meu coração:

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta
outra parte se espanta.

Uma parte de mim
é permanente
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Quer ouvir a música? Fagner ao vivo, com o Quarteto Iguaçu:  http://www.youtube.com/watch?v=8-WOy1i8ipU